Agricultores colhem benefícios duplos com energia solar em campos

Ago 31, 2021

Módulos solares geram electricidade nos campos, ajudando tanto os agricultores quanto a protecção climática. DW visita uma fazenda solar alemã — e constata que tal combinação compensa. Quão amplamente a agrovoltaica pode diversificar-se?

Fabian Karthaus cresceu com energia solar.

“Meu pai construiu o primeiro sistema fotovoltaico no telhado do celeiro e dava para ver que funcionava”, disse.

Hoje, existem dois grandes painéis solares no quintal e as frutas crescem debaixo das bagas de uma delas. Cinco anos atrás, o agricultor Karthaus, de 33 anos de idade, assumiu a fazenda de seu pai, localizada perto da cidade alemã ocidental de Paderborn, a qual administra com seu outro trabalho como gerente de produtos electrónicos agrícolas. Porque com o rendimento do cultivo de 80 hectares de feijão, grão, colza e cultivo de milho “não consigo alimentar uma família”, disse Karthaus.

Calor e as secas fizeram com que os rendimentos baixassem significativamente nos últimos anos.

“Minha esposa e eu pensamos em como poderíamos continuar a operar a fazenda de forma significativa”, diz Karthaus. Foi assim que nasceu a ideia de cultivar frutos sob um teto solar com módulos translúcidos.

Pensamos em avaliar qual tipo de amoras combinava com qual tipo de luz e sombra. Mirtilos e framboesas são plantas florestais, e verficamos que funcionavam muito bem“, disse.

A primeira colheita das bagas, no ano passado, foi boa. Normalmente, as plantas são cultivadas ao ar livre ou em politúneis.

Mas Karthaus suspeita que a sombra sob os módulos pode aumentar os rendimentos. Verões extremamente quentes são agora um problema crescente para as plantas, mesmo na Alemanha. Os telhados modulares economizam água porque há muito menos evaporação, explica Karthaus. “Uma vez medimos aqui. A evaporação é de cerca de um quarto em comparação às plantas cultivadas ao ar livre“, explica.

Energia acima, colheita de bagas abaixo

É evidente que os módulos também fornecem electricidade. Com 750 quilowatts de energia, o sistema gera cerca de 640 mil quilowatts por ano, o que corresponde à necessidade de energia eléctrica de 160 residências.

Karthaus recebe pouco menos de 0,06€ (0,07$) por kWh para alimentar a rede. Pretende usar parte da energia solar para operar seus próprios sistemas de refrigeração e secagem.  Se tivesse que comprar electricidade do fornecedor lhe custaria muito mais caro, cerca de 0,25€ por kWh.

“É uma situação Win-Win’ em que todos ganham. Significa que podemos gerar energia verde localmente, descentralizada, onde a energia é consumida”, diz Karthaus.

Na Alemanha, esse método de cultivo funciona bem para frutas macias, maçãs, cerejas, batatas, e vegetais como tomate e pepinos. Em outras regiões do mundo, diferentes plantas e construções de módulos podem ser adaptadas.

Enorme potencial em todo o mundo

O que exactamente encaixa onde, é algo que actores interessados de todo o mundo podem aprender com Max Trommsdorff, um especialista em energia Agro-Fotovoltaica no Instituto Fraunhofer para Sistemas de Energia Solar, na cidade de Freiburg, no sul da Alemanha. A agrovoltaica é a abordagem empolgante sobre o uso de terras agrícolas para produção de alimentos e simultaneamente gerar energia fotovoltaica. Trommsdorff e seus colegas aconselham governos em todo o mundo e recentemente organizaram uma conferência internacional sobre energia Agro-Fotovoltaica.

Dependendo da localização, pode-se avaliar as condições ideais de iluminação para as plantas, bem como a procura de energia local, diz Trommsdorff. “Isso differe de região para região: depende do que se cultiva, das zonas climáticas e das estruturas rurais.”

O grande desafio, diz ele, é o entendimento mútuo: “O que a energia fotovoltaica pode fazer? O que a agricultura precisa para uma integração bem-sucedida?” Trommsdorff e seus colegas vêm um enorme potencial para a agro-fotovoltaica em todo o mundo. Já existem alguns sistemas de instalação Agro-Fotovoltaica na Europa, também no Mali, Gâmbia e Chile; mas a grande maioria encontra-se na Ásia.

O maior sistema de instalação do mundo, com 20 quilômetros quadrados e uma produção de cerca de 1.000 megawatts, está localizado na orla do deserto de Gobi, na China. O cultivo de goji berries sob os telhados modulares destina-se a tornar a terra seca novamente fértil.

E no Japão, os agricultores já fazem colheitas em mais de 2.000 sistemas agro-fotovoltaicos. “Trata-se de apoiar mudanças estruturais, parar deter o exôdo rural e criar perspectivas para a população rural”, diz Trommsdorff.

Na Europa, a França é pioneira, especialmente na viticultura. Lá, os subsídios governamentais para telhados modulares destinam-se a proteger as videiras.

“Muitas variedades de uvas recebem muito sol e calor devido às mudanças climáticas”, explica Trommsdorff. “Sombra poderá trazer alguma vantagem para a área.”

Novas perspectivas para a agricultura

Fabian Karthaus pretende, no futuro, expandir o seu campo solar. Até agora, as suas frutas cresceram abaixo de 0,4 hectares de módulos solares.Gostaria de expandir isso para uma área de 8 ou 10 hectares, para que realmente seja rentável.”

Para que a sua ideia se concretize, Karthaus ainda terá de ter muita paciência. Actualmente, diz ele, a expansão ainda é complicada para os agricultores na Alemanha. Mas espera que esta situação seja superada brevemente. Tem aconselhado outros agricultores a “definitivamente começarem a lidar com o tema”, mesmo que a implementação em seus próprios campos demore um pouco mais.